Outra pelo Dia do Professor (atrasada)

 

Professor: profissão perigo

 

15 de outubro. Deveria estar orgulhoso por ser o homenageado pelo dia destinado à profissão que abracei, deveria estar comemorando com os meus colegas de ofício, mas não estou. Nem eu nem meus colegas, pelo menos uma imensa maioria, não temos hoje o que comemorar, ainda que orgulhosos da profissão que abraçamos. Ser professor tem se tornando um misto de ofício perigoso e insistência masoquista. Quase um ato suicida. Do pior tipo. Do tipo que, aos poucos, lentamente, mata a alma. O corpo físico, nem se diga. 

 

 Poderia falar das muitas estatísticas que apontam o alarmante (e alguém se alarma com isso?) quadro de profissionais de educação com sérios problemas de ordem neuro/físico/emocional/psicológicas, em decorrência das péssimas condições de nosso trabalho. Não bastasse o salário indigno à função exercida, somam-se outros tantos cravos conhecidos, fincados nessa pesada cruz a carregar-se: as salas de aula criminosamente superlotadas, as (inúmeras) escolas fisicamente ainda mal aparelhadas, a falta de recursos, o que nos força a aulas semimedievais, ainda na base da saliva, quadro e giz; o barulho ensurdecedor, lancinante, destrutivo, que emana de todos os recantos da escola, das salas de aula, dos corredores, do pátio, da rua, o barulho, ah, o barulho! Nossa única arma contra ele é o nosso grito, cada vez mais rouco, pois quase aos gritos, ou aos gritos de fato, temos de dar aula, única forma de nos fazer ouvir ou, muitas vezes, respeitar nesse campo de batalha que têm se tornado as salas de aula. Aos que se recusam a, gritando, perder a voz em poucos anos, e esses, os que perdem a voz, são muitos, resta a difícil arte de educar os ouvidos e corações alheios, buscando-se-lhes provar que é possível aos seres humanos se comunicarem vocalmente sem que um fique surdo ou sem que o outro perca o dom da voz ou da razão. Literalmente falando.

 

 Educar nunca foi tão perigoso. Somamos a tudo dito acima o ensinar-se a muitos que, simplesmente, não querem aprender. E muitos não o querem não por desvio de caráter ou por indolência íntima, mas porque foram ensinados, e muito bem, antes de chegar à escola, que estudar é algo ruim. Tiveram bons professores. Falo dos pais desestruturados, filhos por sua vez de outras “famílias” mal geridas, num ciclo involutivo quase sem fim. Falo de um encontro casual, de um descuido contraceptivo que o destino fez transformar-se numa “família”. Sem a base afetivo/emocional/estrutural necessária, sem o planejamento mínimo, duas pessoas que mal se conheciam se fazem, em nove meses, os primeiros tutores de um ser que aos 6, 7 anos é mandado para um lugar chamado escola. Escola que muitas vezes é vista e usada ora como creche, ora como o porto “seguro” das ruas violentas, ou simplesmente como o local onde seu rebento vá receber alguma porção de comida que seja ao longo do dia e onde será entregue a alguém que o forme como homem, como cidadão, como ser humano, já que para isso são pagos os professores.

 

 Dever da família? Que família? Há ainda outra gama de seres, os que não tendo perspectiva nas ruas, e nela também não tendo limite algum, limite também que, não encontrando em casa, se portam na sala de aula da mesma indigna forma que se portariam em seus domínios, buscando se impor pela tirania. Aos que aceitam, dá-se o antigo preceito da suserania/vassalagem; aos que não aceitam, resta o embate, sempre desgastante, quando não perigoso. Por falar em embate, a escola tornou-se, com raras exceções, um local de batalhas, um campo minado. E muitos já são os mutilados dessa guerra. Numa outra análise, pode-se falar da escola como um hospital não admitido. Nela, muitos são os portadores dos mais variados tipos de patologias (emocionais, psicológicas, afetivas e físicas), sem que se lhes dê o tratamento adequado e necessário. Ao professor, esse que “abraçou o magistério como um sacerdócio”, cabe a múltipla função de ser ao mesmo tempo: pai, mãe, irmão, psicólogo, guia espiritual e médico. E, não raro, ser também da polícia. Sim, nas escolas também existem armas e drogas. E gente disposta a usá-las. 

 

 Muitos acharão pessimista o meu artigo, carregado de excessiva violência verbal. Violência? Violência é o que nós, educadores, temos vivido e morrido a cada dia em nossas unidades de ensino. Chegamos ao absurdo de começar a admitir o conceito da “agressividade aceitavelmente permitida”. Os palavrões, os desacatos, os desrespeitos em sala de aula, nos corredores, nos pátios, nas áreas livres; as ameaças, veladas ou não, dirigidas a quem trabalhe em educação, tornam-se a cada dia um fato comum, “natural e perfeitamente aceitável” e que, portanto, deve ser por todos aceito. Tem se tornado o professor um refém dentro de seu local de trabalho. Em muitos casos, com medo entramos em nossas escolas, com medo nos sentimos, ao sair delas, um vergonhoso e inaceitável sentimento de alívio nos toma conta da alma. Não passamos pelos bancos das universidades para, no exercício de nossa carreira, sentirmos isso. 

 

Educador há doze anos e cidadão há 35, nunca vi em minha vida um gari a varrer a rua e ser xingado, ofendido. O mesmo digo de um policial a pé ou em sua viatura, fardado ou à paisana; de um delegado em sua delegacia, de um dentista, de um médico, de um engraxate, de um mecânico, de um feirante ou de um ambulante, durante os afazeres de seus ofícios. Aos professores, entretanto, criaram a fábula medonha de que estes seres suportam tudo, e que são eles os “detentores da extrema mansuetude e paciência”. Não sabem os que tal asneira professam como verdade, que a “paciência” diante desses casos, cada vez tão mais citados, muitas vezes nada mais é do que o simples medo, ou a anulação enquanto ser, travestidos de calmaria, de santificada resignação. Muitos já sãos os estressados, os roucos, os mudos, os surdos, os depressivos, os enfartados, os fartos (ah, os fartos do ofício!), entre nós, professores. Mas também muitos já são os agredidos, os mutilados, os ameaçados de morte e por fim os mortos de fato. Mas esses números quase nunca aparecem. Especialmente nas propagandas dos partidos e políticos eleitos, ou dos que lutam para se eleger. Para ambos, a educação é, e sempre será, o “futuro da nação”, refrão já roto de tão usado, uma falácia que não causa mais efeito algum. Para estes é claro que os problemas existem, mas também não são tão graves a ponto de merecerem real atenção. Essa técnica, aliás, a de esconder a cabeça num buraco, tal qual se diz da avestruz diante de um inimigo ou em dias de tempestade, é também norma típica dentre muito educadores (em tempo: a história da avestruz covarde é fictícia. Nem ela é um animal tão estúpido assim) “Problemas? Que problemas? Problemas? Minha escola? Problemas? Eu? Eu não tenho problema algum…” Admitir um mistério implica resolvê-lo, o que implica muito trabalho, ou no mínimo uma mudança significativa de postura diante de si, do mundo, da vida. E muitos professores (sic) simplesmente não querem isso. Optaram (aí sim, resignadamente) por aguardar de forma ansiosa pelo dia de sua sonhada aposentadoria para, então, deixarem de ser professores. 

 

 O que ainda salva a nós, professores, nesses dias de eterna tempestade, nesse imenso mar de calhaus, são as boas presenças e lembranças dos nossos (ainda, muitos) bons alunos, que nos fazem acreditar que o nosso sonho de um mundo digno ainda é possível. Mas há de se dizer: desses bons alunos, um número cada vez menor se vê abraçando a docência como destino. Fica a pergunta: sem professores, onde estará o nosso futuro?

 

 Josafá Santos é historiador e especialista em educação 

 

De: 

"Caros Amigos" <webmaster@carosamigos.com.br> 

Published in: on 27 de outubro de 2008 at 23:36  Deixe um comentário  

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